sexta-feira, 15 de abril de 2016

A Inteligibilidade da fé no Mundo Contemporâneo




            Durante muito tempo, o objeto de estudo e o método da teologia percorreram caminhos menos turbulentos. Isso porque, hoje, ao vivermos em uma sociedade tão plural, num contexto onde há muita superficialidade, a teologia tem o papel de buscar a razão e o sentido mais profundo, que à fundamente, nas diferentes áreas, seja na dogmática, na Bíblica ou na sistemática. Não estamos afirmando, contudo, que os primórdios da teologia tenham sido menos desafiadores, do que hoje, em sua sublime missão de dar razão à fé. Na verdade, o que acontece é que a cada dia novos questionamentos surgem em torno da fé.
            Os primeiros séculos do cristianismo são testemunhas de uma fé encarnada e viva. Dado ao fato de que, a unidade da fé dialogava naturalmente com a pluralidade de expressões que a tocavam. Em todas as suas dimensões, e em diferentes contextos, essa diversidade nascia do particular. E a pluralidade de expressões, como afirma Moingt, não era uma ameaça à unidade, muito pelo contrário, ressaltava ainda mais sua riqueza.
A Igreja nascente começa a entrar em contato com contextos culturais diferentes dos seus. Quando isso acontece, começa a haver a necessidade de entender a cultura na qual ela está se pronunciando, trata-se da cultura helênica. Nessa imersão, ou atualização, começam a surgir algumas correntes de conhecimento, como a gnose, que contradiziam a ideia de Salvação e punham em risco o dogma da Revelação. Diante disso, a Igreja se posiciona contra tais correntes que ferem a sua doutrina, e então se organiza para amparar e fundamentar a fé. Nesta tarefa de estruturar e dar razão a fé nasce a Regra de Fé. Assim surgem também os símbolos, como o Símbolo dos Apóstolos, dentre outros.
Ao longo dos séculos seguintes, muitas teorias desafiaram a estrutura da Regra de Fé e a teologia cristã, que, com a ajuda dos Padres da Igreja, Teólogos, Filósofos, etc., a Igreja foi respondendo e confirmando a unidade da fé.
Hoje, no mundo contemporâneo em que atuamos, um dos grandes desafios para garantir a inteligibilidade da fé cristã é a pluralidade de pensamentos e correntes que segregam a sociedade, e que, muitas das vezes, apresenta uma crença vazia e efêmera. Portanto, uma pergunta que se torna latente entre os “agentes da fé”, responsáveis por garantir sua inteligibilidade hoje, é, talvez, como iluminar esse mundo contemporâneo tão complexo à luz da reflexão teológica?
Acredito que, primeiramente, é preciso partir de uma visão antropológica de que a fé não é um dado separado da ação, é preciso ter a visão do ser humano como um todo, e assim como nos primórdios do cristianismo, em que a unidade da fé nunca foi confundida com a uniformidade de expressões, bem como que, professar a fé implicava em viver a fé como regra e projeção de vida. Oração e ação, precisam caminhar juntas, não pode haver dicotomia entre ambas, se quisermos de fato possibilitar um diálogo coerente acerca da fé.
Um segundo passo seria assumir um compromisso com o Jesus humano, de modo que, fique claro que crer no ressuscitado requer um compromisso com o Deus Homem e a humanidade. O papa Francisco disse na carta enviada à Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade Católica da Argentina, por ocasião de seu centenário, que o teólogo de hoje precisa ter bem definido em si três distintas características: ser uma pessoa atenta e inserida no seu tempo, ser uma pessoa que testemunhe a sua fé e, por último, e não menos importante, ser uma pessoa que tenha atitudes proféticas, em sintonia com os apóstolos e os sinais dos tempos. O Jesus vivo deve estar no centro. Jesus caminhava com o povo, vivia sua realidade, e os cristãos também devem estar inseridos na realidade que os cerca, só assim será possível levar os homens a um encontro com a pessoa de Jesus.
Por último e mais desafiante, repensar a imagem de Deus. Como nós, educadores da fé, estamos apresentando Deus às pessoas? A onipotência de Deus não deve ser apresentada como um domínio, como um poder opressor. O desafio, que precisamos vencer para garantir a inteligibilidade da fé hoje, é apresentar Deus como um ser tão onipotente que se fez criança, se fez gente como nós, através da encarnação de Seu filho Jesus, e isto é próprio de Deus, Ele sempre caminha conosco. Deus que está no meio de nós como Pai e Amigo, nos ama, nos quer bem, esse é o Deus pregado pelos apóstolos e desejado pelas pessoas do nosso tempo.
Portanto, para garantir a capacidade de perceber e compreender bem a fé, dada toda a complexidade e multiplicidade do nosso mundo hoje, é preciso sempre recorrer às raízes do cristianismo, onde está a fonte da fé, a Revelação. E, atento aos sinais dos tempos, ler a Regra de Fé, as contribuições dos Padres da Igreja, em sintonia com os apelos e necessidades do mundo, testemunhando com ações práticas a fé que professamos. Assim, tornar a fé inteligível significa vive-la e pregá-la de maneira autentica no dia a dia. Crer é mais do que proferir orações, é transformar realidades em orações.